Desassossego

Carnaval e a trivialização da cultura de violência contra a mulher

"Carnaval sem beijo roubado não tem graça"

Para muitas mulheres, ao ouvir uma frase como essas passa um filminho em nossa cabeça das inúmeras situações de assédio, violência e agressões que sofremos diariamente, e mais ainda em contextos como o carnaval. Puxões de cabelo, seguradas violentas no rosto, frases agressivas, ataques de vários homens reunidos, corredores poloneses de "beijos roubados"- das violências mais simbólicas e verbais à assédios e agressões mais violentos.

O que para alguns (para pessoas que afirmam frases como essa) é algo inofensivo, lúdico e natural, para muitas mulheres representa a violência a que somos submetidas por termos nascido mulheres numa sociedade machista e patriarcal - o que para alguns é diversão para outras equivale a um soco no estômago, a uma descarga de sentimentos, medos e dores.

O carnaval, festa de alegria e celebração, deveria passar longe de toda essa violência. Infelizmente essa não é a realidade no Brasil. Muitas vezes as mulheres para se divertirem em paz desenvolvem verdadeiras táticas para escapar de tantas armadilhas e violência. Armadilha, a realidade é para nós uma verdadeira armadilha. Para muitos temos que pagar um preço por nos expressar, para usar a roupa que queremos, para dançar, para sorrir. Numa situação de equidade, sem violência, sem machismo, todas e todos seriam mais felizes. As mulheres teriam mais liberdade pra expressar sua sexualidade e seu desejo, sem serem taxadas como putas que merecem ser estupradas. Os homens se libertariam desse modelo agressor e violento, do modelo de caçador atrás do abate.

Por isso, evidentemente, toda solidariedade masculina é fundamental e bem vinda. Mas não existe solidariedade sem escuta, acolhimento, sem uma profunda busca por entender o Outro, entender que nós mulheres vivenciamos, desde que estamos na barriga de nossa mãe, algo que é incomensurável aos homens. Absolutamente não existe solidariedade sem essa escuta e busca por compreensão, com a neutralização de um situação de extrema desigualdade e violência. E muitos homens que se dizem solidários à causa feminista não tem essa consciência, sequer o mínimo de cuidado em relação à essa intersubjetividade, esse cuidado e olhar atento para quem tem uma experiência e uma vivência radicalmente diferente à deles.

A cultura da violência contra a mulher está entranhada na nossa sociedade, na nossa consciência, nas nossas noções e pressupostos. Identificar onde a cultura da violência contra a mulher se reforça e se reafirma é fundamental. Precisamos estar abertos para desconstruir essa violência e opressão que nos permeia - é preciso estar aberto para ouvir, repensar, abandonar velhas ideias e comportamentos. Todos nós - homens e também mulheres. Quem não aceita críticas, quem é incapaz de dar um passo atrás, se autoquestionar, e ainda por cima ouvir pessoas que vivenciam e sofrem diariamente com o machismo, continuará reproduzindo e reforçando a cultura de violência. Não existe solidariedade sem escuta e compreensão. Não existe solidariedade dentro de uma lógica pura de poder e autoridade. Ninguém se torna solidário porque lê livros e se diz feminista. A solidariedade se traduz numa postura cotidiana, numa forma de enxergar, se relacionar.

A crítica e repúdio à frases que reforçam a cultura de violência contra a mulher, em especial essa - “Carnaval sem beijo roubado não tem graça” - definitivamente não se trata de picuinha filóloga, nem muito menos existe o objetivo de uma “guerra santa feminista” contra todos os homens e mulheres contrários a quem defende a libertação e os direitos das mulheres. Essa afirmação se insere num contexto que foi bem mostrado na reportagem da TV Estadão sobre violência e assédio contra mulheres no carnaval. Como bem demonstram esses tuítes:


Roubar é tomar algo que não é seu e sem consentimento. “Beijo roubado com consentimento” é uma contradição evidente, notória. Mesmo levando em conta a possibilidade de algo “poético”, um sentido não violento à frase “beijo roubado” - estamos falando do contexto do carnaval brasileiro, como já colocado. Um contexto em que várias campanhas foram feitas para o combate à violência e ao assédio contra mulheres. Um contexto em que foi necessária uma campanha de repúdio contra a propaganda grotesca da cerveja Skol, em que foi necessário repetir mil vezes o óbvio: Não é Não! “Carnaval sem beijo roubado não tem graça”. Na hora me veio à mente o comportamento grotesco e asqueroso do garoto entrevistado pela TV Estadão. De boas intensões o inferno está cheio. Como afirmado, as palavras têm poder e importam sim. Não ao beijo roubado, não à forçação de barra, não à qualquer tipo de violência e assédio! 

Ao contrário dos detratores e ressentidos contra o feminismo, defendemos a alegria, a liberdade, a libertação sexual de fato, onde ninguém seja subjugado e sofra violência por ser quem é. Como diz a Valesca, beijinho no ombro pra esse recalque de ressentidos e autoritários passar longe!

PS. Optamos por não revelar nomes já que o objetivo do texto não é denunciar ou expor pessoas mas tratar sobre a cultura banalizada da violência contra a mulher e as resistências que existem para se encarar, enxergar e combater essa cultura.

O texto foi escrito com a colaboração da @ivonepita e da @luzdocerrado, a quem agradeço por terem feito parte do debate. 


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